Sexta-feira, Setembro 24, 2010

A Política, o Brasil, e as Eleições 2010

            Amigo(a)s, vivemos um importante marco histórico: as eleições de 2010. O Brasil se afirma como nação e caminha para completar sua transformação em país republicano (de 1889 a 1988, até nossos dias). As forças “ocultas” que outrora promoveram o suicídio, a renúncia, e a deposição de Presidentes, hoje estão visíveis e atendem pelo nome do “crescimento”, e “emergência”. O Brasil, país “emergente”, que por opção política progressista e bem sucedida estratégia econômica, voltou-se para dentro de si sem fechar-se para fora, fortaleceu seu mercado, e é reconhecido no mundo, como uma potência em ascensão. Como potência que almeja transformar-se em ato, precisa de muito mais do que o consumo de mais alimentos, e de mais carros e geladeiras. Precisa de visão estratégica, de projeto civilizatório, de mudanças estruturais. O PT e o Presidente Lula cumpriram grande papel em fazer avançar a temática social e em manter os fundamentos econômicos que garantiam a nossa estabilidade (mesmo com um discurso dissimulado antiliberal capaz de dar aos bancos seus maiores lucros no planeta!), entretanto, o crescimento (econômico) em si, não pode ser visto como o lugar ideal onde se deseja estar e alcançar, mas simplesmente como um caminho necessário e passageiro na luta pelas mudanças estruturais que impliquem num questionamento profundo das instituições, das relações de produção, e da lógica do capital, para superação do atraso político nesta longa caminhada por igualdade e justiça, cuja primeira expressão liberal foi a Revolução Francesa, que com sua promessa de liberdade, igualdade, e fraternidade, inaugurava o sonho de milhões de seres humanos, pelo reconhecimento da “humanidade” como agenda política de um novo projeto de civilização. Na esteira histórica dos acontecimentos, floresceu outra utopia, revoluções foram feitas ou inacabadas, avanços e retrocessos foram realizados, mas nenhuma dúvida foi posta sobre a necessidade de se avançar na buscar da superação das desigualdades e injustiças, cuja bandeira utópica continua a tremular aguardando seus novo(a)s empunhadore(a)s. Ser de esquerda é assumí-la. Ser de direita é transferi-la para outro cenário de debate, subjetivo, de mercado, relativo às incapacidades ou vontades e escolhas humanas, como se a liberdade de oportunidades fosse algo já dado e resolvido, residindo aí, portanto, o cerne ideológico do que chamamos neoliberalismo. No Brasil, duas correntes teórico-políticas disputaram o Poder. A primeira, defendendo a idéia de que o Estado não era capaz de atender às demandas sociais e econômicas pela sua ineficiência, a qual poderia ser superada se fosse empregada a forma de gestão das bem sucedidas empresas, ou se não fossem postos obstáculos ao “natural” desenvolvimento das sociedades. A segunda argumentava que o Estado não ia bem porque era fraco e era preciso fortalecê-lo e aproximá-lo da sociedade, criando um ambiente político mais favorável à democracia popular e participativa. Esta foi a corrente vitoriosa e este é o governo de esquerda que foi possível no contexto sócio-político-histórico brasileiro. A crise estrutural do capitalismo (1929 e 2008) e a própria dinâmica da mundialização do capital demonstrou que sem Estado interventor, promotor e indutor, não há capitalismo possível. Acontece que não se conquista o Poder apenas conquistando-se o Governo, e nem tampouco o Estado enquanto ente histórico, apenas conquistando o direito de governá-lo. São fundamentais, mudanças estruturais. As Reformas Institucionais necessárias para que se proporcionassem tais mudanças capazes de fazer avançar a luta, de esquerda, pela superação das desigualdades e injustiças, não foram sequer postas na pauta de discussões e menos ainda na agenda política do Governo Lula da Silva. Até a Lei da Ficha limpa, teve de sair pela via da iniciativa popular e ainda hoje, depois de aprovada e sancionada, divide a sociedade e o judiciário brasileiro quanto à sua aplicabilidade nas Eleições em 2010. Em nome da manutenção da governabilidade, concessões foram feitas tanto às correntes atrasadas e fisiológicas quanto aos pontos de vista ético e moral, gerando escândalos de corrupção e tráfico de influência, que em essência, não diferiam do que já havia como regra, mas que agora passaram a ser exceção, como se “normais” assim o fossem. Julgar a todo(a)s com os mesmos pesos e medidas, à luz das conquistas obtidas, parece injusto, confesso, mas também não se pode jogar fora a criança com a água suja do banho, pois em comparação ao banho de sujeira cometido pelos que hoje de boca suja proclamam o discurso da ética, houve sim avanços, mas também inegáveis retrocessos. Tal julgamento parte da decepção com a política do passado e da aposta e do credito depositados na esperança política de futuro, que em 2002 representava a ascensão, pela primeira vez no Brasil, das forças progressistas ao comando da máquina estatal, mas ainda não ao Poder. Como um momento tático, de uma estratégia ulterior de superação, as forças progressistas não poderiam e nem tinham o direito de errar, como assim prometeram em palanque, mas não foi exatamente isto que a história demonstrou, mesmo levando-se em consideração os excessos da imprensa golpista e da violenta e privatizada imprensa “livre” brasileira, já que não se pode confundir liberdade de imprensa com imprensa livre. O Brasil polarizou-se. De um lado, os outrora social-democratas hoje convertidos em liberais conservadores (PSDB e setores do DEM, pois o grosso é fisiologista de direita com braços na hereditariedade “capitanea” e na violência agrária), e os outrora socialistas convertidos em legítimos social-democratas (PT, PSB, dentre outros), tendo o centro fisiológico, com nome e sobrenome - o  PMDB das “famiglias” oligarcas, equilibrando e desequilibrado o jogo tanto para a direita como para a esquerda, conforme as conveniências. Em analogia ao bêbado equilibrista, o país parece mesmo estar politicamente numa corda bamba, na qual estas históricas eleições de 2010 irão decidir qual será o lado da queda. Ao que tudo indica, haverá a continuidade do alinhamento econômico aos interesses do capital, entretanto, ocorrerá um aprofundamento das contradições que colocarão o país numa situação propícia a golpes políticos e sabotagens, sem grandes rupturas, ao novo governo que se anuncia. Nesta reconhecida fragilidade política, representada pela defesa do “Voto Útil” na candidata à Presidência do Partido dos Trabalhadores, como um mal necessário, ou alguém que não se preferia, mas que se aceitou em nome do respeito à trajetória e conquistas do líder do processo de democratização brasileiro, que foi o Presidente Lula da Silva, há um crescente desencantamento e afastamento de setores importantes da sociedade brasileira, inclusive os formadores de opinião, da participação e militância políticas que representaram e representam o avanço democrático presente e futuro. Cabe agora, mesmo diante de incontestes erros morais e éticos, não dar espaço para mais instabilidade do governo, mas sim, realizar uma crítica e forçá-lo cada vez mais, com participação, fiscalização e vigilância cidadãs, e cobranças revolucionárias, promover as condições políticas necessárias para a realização das mudanças estruturais capazes de fazer avançar a luta contra as injustiças e desigualdades. A “REVOLUÇÃO BRASILEIRA” É A REVOLUÇÃO MORAL E ÉTICA! Esta cobrança crítica somente poderá ser feita pela esquerda, pela defesa aberta e democrática do SOCIALISMO, como única alternativa posta a uma real superação do regime capitalista que desperdiça no processo produtivo, tanto os recursos naturais (como se estes fossem infinitos) quanto vidas humanas, desprezando futuros e esperanças, tornando-as supérfluas na imprescindível reserva de mão-de-obra barata, que agora atende à corrida ideológica por mais “qualificação”, mantendo assim, fora do mercado, mas sempre consumindo, milhões e milhões de indivíduos (produtivos e capazes) em pleno desemprego, transformando a vida nas grandes cidades e periferias, em algo insuportável dos pontos de vista social, psíquico, e ambiental. Curioso é ver que o receituário capitalista para o que chamamos de desenvolvimento, imposto pelos financiadores das políticas públicas contratadas com dinheiro gerido pelo Banco Mundial, como estratégia inquestionável a ser seguida pelos países “em desenvolvimento” como forma de superação do seu atraso na corrida “atrás do tempo perdido”, é exatamente o da concentração cada vez maior dos fatores produtivos nas grandes cidades, da quebra de barreiras tributárias e alfandegárias, da diminuição do controle estatal, e do favorecimento à mobilidade dos trabalhadores e dos capitais, para o aproveitamento, melhor dizendo depredação, de vidas e ambientes, na lógica irracional de mais capitais, que consome por dentro o próprio sistema capitalista. O fosso aumentou entre os ricos e os pobres. A desigualdade aumentou. E aumentam em todos os países, inclusive nos mais ricos, a pobreza absoluta e relativa de suas populações. Não há alternativa política fora da promessa de superação da desigualdade e da injustiça, portanto faz-se necessário reavivar o grito por mudança, à esquerda, que representa a defesa livre, aberta, sincera, e democrática do SOCIALISMO NO BRASIL! O Socialismo no Brasil não será possível com a destruição da bandeira da ética, nem muito menos sem a assunção clara e aberta da palavra SOCIALISTA na boca daqueles que conquistaram democraticamente o direito de gerir a máquina estatal. O PT, Lula e Dilma têm a obrigação ética e moral de pronunciá-la, sem medos ou reservas, de assumir para o mundo e para os brasileiros, que o Brasil não quer e nem deseja seguir o modelo de desenvolvimento estadunidense e que nós, legítimos AMERICANOS, do Sul, é claro, estamos à esquerda, e queremos dar ao mundo, um exemplo de uma nova sociedade, de uma nova civilização, de uma civilização romana, celta, indígena, portuguesa, africana, banto, yorubá, que constitui a riqueza da diversidade sócio-bio-étnica do Brasil que arde por profundas mudanças e transformações. A Revolução brasileira já começou, ela terá de ser ética, diversa, única e plural, mas singular na caminhada, e sublime no destino.

Sábado, Setembro 11, 2010

A guerra e suas “casualidades”: o 11 de setembro e a “tolerância” global

Hoje celebramos o “11 de setembro”. A CNN, em rede mundial, clama pela comoção e coloca dúvidas em nossas mentes sobre o que poderia ter dado errado e o porquê de alguém ter sido capaz de tanta brutalidade contra inocentes. Esta é a mensagem que fica além da propagação da cultura do medo e da necessidade de segurança. O editorial do “The New York Times” apela para a tolerância e enfatiza o uso político do intolerante pastor evangélico que ameaçava queimar o Alcorão e gerou um temor mundial de novos atentados. Enfim, “casualidades” à parte, vamos aos números desta guerra contra a “intolerância”. Desde o ataque das torres gêmeas – que mataram 2.976 pessoas – a primeira represália iniciada (em 10/10/2001) contra o Afeganistão matou entre 3.000 e 4.000 civis[1] que muito provavelmente pouca ou nenhuma ligação direta tinham com os ataques às torres gêmeas e/ou com o talibã. Seu maior crime: serem mulçumanos, orientais, pobres e “fundamentalistas”. Mais uma vez a tolerância ficou em segundo plano. No Iraque, nos combates seguintes (entre 05/05 e 19/09/2004, segundo fontes governamentais), 3.487 iraquianos foram mortos e 13.720 ficaram feridos[2]. Até 2004, já eram mais de 7.000 mortos, mais do que o dobro das vítimas dos atentados de “11 de setembro”. Dentre as “casualidades” a serem adicionadas nesta contabilidade, estariam os mais seis anos de conflitos ainda vindouros e a destruição da infra-estrutura dos países “intolerantes”. Desde então, 4.418 americanos morreram no Iraque (3.495 em combate)[3], que do outro lado, estima ter perdido entre 97.757 e 106.693 dos seus cidadãos, mortos em conflito até o mês passado, em 11/08/2010[4]. Ao todo, nesta contabilidade “intolerante”, já se perderam mais de 110.000 vidas, ou seja, quase 40 vezes mais vidas que as perdidas no lastimável dia “11 de setembro”. O líder cubano, Fidel Castro, em sua coluna no “Pátria Amiga” (periódico cubano, esquerdista, de integração latino-americana e caribenha), enumerava as 238 razões para estar preocupado com a crescente onda de rivalidade e belicismo junto ao Irã[5], suposto novo alvo americano, e acrescenta ser impossível uma vitória americana contra 1,5 bilhões de mulçumanos. Enquanto escrevo este artigo, escuto via CNN, as badaladas do sino fúnebre que homenageia as vítimas das torres gêmeas em Nova Iorque. Quantos sinos ainda tocarão? O tilintar metálico das homenagens fúnebres contrasta com o das bombas sendo carregadas e dos gritos dos vibrantes combatentes ao “acertarem” os alvos (veja vídeos sobre os ataques no youtube). Diante de total intolerância humanitária, devemos nos perguntar: a quem serve o discurso da segurança e da proteção contra a “intolerância” religiosa, aos agressores ou aos agredidos?! E quem é quem neste jogo?! Estas são algumas daquelas boas perguntas, para as quais o mundo ainda aguarda respostas.


[3] http://antiwar.com/casualties/ em 1109/2010. Uma lista descritiva, caso a caso, pode ser vista neste site.
[4] http://www.iraqbodycount.org/database/ em 11/09/2010. Lista das “casualidades” iraquianas.
[5]http://www.patrialatina.com.br/colunaconteudo.php?idprog=cc42acc8ce334185e0193753adb6cb77&codcolunista=40&cod=1655 Publicado às 8:21 de sábado, 11/09/2010, na coluna de Fidel Castro no “Pátria Latina” de Cuba, onde também podem ser lidas as “248 razões para estar preocupado”.